Sobre mulheres e musas

Vera Fischer é a Super Fêmea (arte no cartaz do mestre Benício)

Vera Fischer é a Super Fêmea (arte no cartaz do mestre Benício)

Por que algumas mulheres são musas, enquanto outras são apenas gostosas? Qual a característica que diferencia, através dos tempos, Greta Garbo, Marilyn Monroe, Ava Gardner, Vera Fischer, Ivete Sangalo e tantas outras?

Pois digo, não estamos falando somente de corpinhos deliciosos, que tanto amamos e queremos consumir entre as refeições. Trata-se de questão sócio-espiritual sobre a qual precisamos nos debruçar sem pudores, especialistas sérios que somos.

Como ponto de partida da minha ontologia pornográfica, assumo que todas as musas são, comprovadamente, desalegres. É um fato que as musas precisam ser temperadas no sal das suas lágrimas, ao longo dos anos. Hão de possuir uma tristeza atávica, um esgar de desamparo, duas conjuntivas rosadas e, não raro, um especial buquê com notas de channel e jack daniels.

Para alguns sujeitos abonados, é possível fazer uma mulher bonita feliz. Dê-lhe flores. Jóias. Um casamento no Itanhangá Golfe Clube em São Conrado, no Rio de Janeiro. Mas uma musa? A Luma de Oliveira, lembrem da Luma de Oliveira, qual o ser terreno capaz de secar seus pingentes de diamantes, derramados sobre todos nós? Eu respondo, NINGUÉM, nem o sujeito mais rico de um grande país emergente seria capaz de fazê-lo.

As musas possuem um papel cristiânico no planeta: elas vieram para sofrer por todos, e dessa forma nos redimem. Nós, homens, nunca entenderemos as mulheres, mas as compreendemos. É a vida. Isto acontece porque a mulher ultrapassa o entendimento.  Já a musa, por sua vez, ultrapassa a compreensão. A diferença é sutil porém fundamental. A musa será sempre uma incompreendida, eis a derradeira razão da sua infelicidade. Ela buscará em nós algo que não saberemos retribuir. E a nossa incapacidade de doar compreensão muitas vezes terminará em barracos, tragédias, porres homéricos em boates gays com direito a strip, ou simplesmente uma vida em reclusão, envelhecendo em tonéis de carvalho.

Por conseqüência eu compreendo, com certo enfado e alguma decepção, os casamentos de sonho da Juliana Paes e da Sandy. Mulheres… simples mulheres… amigos, por essas e outras é que sempre retorno, como bom afilhado que sou, aos seios da minha madrinha Xuxa. Ela precisa da minha incompreensão, eu preciso da sua infelicidade. É a nossa simbiose de solidões, até a morte nos separar.

O mundo do entretenimento

Capa da Revista Manchete em 1984

Capa da Revista Manchete em 1984

Depois de um longo e evangélico inverno, parece que muitos órgãos de comunicação voltaram a ser dominados pela indústria da pornografia.

Certo, sou um otimista incurável. Ainda temos um longo caminho para retomar as madrugadas televisivas dos pregadores e devolvê-las às pregas. Mas, repito: a baixaria está ganhando força. Vejam só que “topless” é das palavras mais buscadas no site da globo.com.

Nesta semana que passou, o mundo do entretenimento calhorda foi surpreendido com duas notícias, obviamente plantadas pelos Senhores da Sacanagem.

Na primeira notícia, Roberta Close, ex-mito, ex-travesti, ex-transexual, ex-homem, anuncia que posará nua novamente e que “não recebeu proposta para fazer filme pornô”.

Sabemos por experiência que, quando alguém aparece dizendo que “não fez um filme pornô“, só falta a divulgação da data da festa do lançamento do DVD (por favor, me convidem).

A segunda notícia, que surgiu sabe-se lá de onde, foi a de que o respeitado Grupo Sexxxy realizou uma pesquisa entre seus peludos clientes em que perguntou: “que celebridades você gostaria de assistir em nossos filmes artísticos-e-com-história?”

Não sei quem perguntou, nem quem respondeu. Não sei como alguém respondeu. Pra minha casa não ligaram, pra cá só ligam as senhorinhas da Creche do Menino Jesus da Ceilândia, a quem eu costumo informar que só adotarei a pobre menina Queyllen se ela for vacinada e maior de idade.

Pois bem, é com satisfação e saliva que reproduzo a suspeitíssima listagem abaixo:

1º Viviane Araújo
2º Carol Miranda
3º Sabrina Sato
4º Mulher Moranguinho
5º Mulher Melancia
6º Roberta Close
7º Sabrina Boing Boing
8º Fabiana Andrade
9º Nana Gouvêa

Por uma coincidência inexplicável (ahã), quem é que apareceu na listagem? Ela… a eterna musa de Erasmo Carlos, na sexta posição. Interessante também que nenhuma das divas relacionadas possui contrato com a Rede Globo… e se querem saber da minha opinão: VIVA VIVIANE, você merece, garota! É o reconhecimento do seu trabalho! E tenho dito. Nada a concluir, só a constatar.

*  *  *

A imagem inicial deste texto remete aos tempos em que havia uma conceituada revista semanal que botava uma mulher gostosa semi-nua na capa com chamadas de reportagens sérias e algum colunismo social. Cabeludos como eu tinham um bom motivo para ir aos barbeiros, locais onde indefectivelmente a Manchete era cortesia da casa.  Eu apreciava em público e na plena luz do dia, por exemplo, a Xuxa (na sua fase mais legal, quando ela era cachorrona) e de tabela, pra não pegar mal, aprendia sobre os dissabores da Transamazônica ou do Projeto Calha Norte. Ir ao barbeiro era um evento de alto aprendizado, sexual e cultural. Bem mais instrutiva do que a Revista Caras.

E já que estou falando em Manchete, Xuxa e Roberta Close, registre-se: eu lembro desse programa aqui embaixo…

O sonho olímpico de todos nós…

…enfim realizado pelas nadadoras britânicas da modalidade maratona aquática, medalhistas de prata e bronze. Parabéns para elas!

Entrou água…

…nos sonhos olímpicos da equipe grega de pólo aquático feminino, derrotada pelas australianas.

(E já escrevi sobre este belo esporte de contato, bem aqui.)

Entrou areia…

…nos sonhos olímpicos da dupla mexicana Candelas e Garcia (na foto acima).

O Ninho do Pássaro

O Ninho do Pássaro

Saudações olímpicas aos amigos do blog.

Alguns de vocês podem não saber mas, entre as minhas várias formações, está a de arquiteto multitalentoso de construções de duplo sentido. Às vezes a modéstia me impede de dizer que aquele rapaz, meu discípulo Oscar Niemeyer, foi um dos parceiros de inesquecíveis noites empoeiradas do cerrado, época em que afagávamos a terra e fecundávamos o chão de onde nasceria a nossa Capital Federal (mas se vier bater na minha porta clamando por paternidade eu nego). Durante o processo, desenhamos muitos símbolos fálicos que viriam a se tornar as sedes do poderes nacionais.

Enfim, anos atrás, os companheiros chineses me procuraram com um sonho: construir o mais grandioso e escancarado estádio do mundo, o palco dos Jogos Olímpicos de Beijing, em 2008.

Topei o desafio e rabisquei, com poucos traços firmes e fluidos, o esquema que ilustra este texto. Em mandarim, o nome do estádio seria “A Grande Vulva”, porque na China quase tudo tem que ser grande e visível para os onanistas do espaço sideral. Claro que, se fosse no Brasil, rapidamente seria apelidado de Bocetão. Mas os chineses são mais poéticos e sutis do que nosotros brasileiros, daí a bela alcunha “Ninho do Pássaro” para o oficialmente batizado ”Arena Poliesportiva Camarada Lírio Mário da Costa”.

Percebam na Grande Vulva a amplitude dos arcos, o arrojo moderno das curvas, a preocupação ecológica da preservação da mata nativa e a facilidade de acesso, com amplo estacionamento.  Especial atenção para os anexos em que se disputarão as modalidades úmidas (o Cubo D’água ou, simplesmente, Cuzão). Toda essa beleza sem esquecer dos rígidos requisitos que serão atendidos para abrigar, com máxima segurança, os corpos suados de atletas do mundo inteiro.

É como eu sempre digo aos meus jovens alunos: a arquitetura é uma arte. E a obra inteira do artista é fruto de sua obsessão por uma única idéia. Não desistam das suas idéias, pois um dia elas poderão tornar o mundo um lugar melhor para se viver. E o tarado incompreendido de hoje poderá ser o gênio de amanhã.

Momento banquinho e violão

E tem gente que prefere o João Gilberto…

(pra quem ainda não sabe ou não percebeu, esta música da Carla Bruni é a versão original da trilha sonora do Peugeot 307, que passa na TV)

Álbum de família

Júnior e Sandy

Alguns de vocês, velhos companheiros, sabem que acompanho de perto a vitoriosa carreira da sobrinha do Chitãozinho, antes mesmo de escrever neste blog. Sabem que a ex-namorada do baterista Júnior freqüenta toda a sorte de imaginários perversos pelos quais sou justificadamente odiado. Eu passei um bom tempo sem tocar no assunto, entretido que estava em viver uma vida de homem de bem. Agora, com seu casamento iminente, sinto que preciso me debruçar sobre o tema “Sandy” mais uma vez (provável que não seja a última).

Anos atrás, eu afirmei, inebriado de poesia, que a Sandy era a mulher com a qual eu palitaria meus dentes amarelados. Que muito prazer eu teria em entortá-la, ao redor do meu umbigo de cerveja, para usá-la como um cinto de caubói de Ribeirão Preto. Ou, vá lá, que apenas guardaria a menina na minha gaveta de cuecas, para aromatizar o ambiente, depois de lambuzá-la bastante com a minha saliva neurotóxica.

Pasmem, recebi muitas críticas pela ousadia da declaração de que comeria a Sandy e, minutos mais tarde, orgulhoso, contaria o fato para todos os meus amigos carnívoros. Uniram-se nas críticas os moralistas safados e os safados moralistas.

As críticas dos moralistas safados são sempre esperadas, em qualquer declaração relacionada a genitálias legais e ilegais. Eu não dou a mínima.

Mas por que me criticaram os safados moralistas? Foi porque a Sandy tinha (tem) peito pequeno? Porque a Sandy fizera par romântico com o Guilherme Fontes na novela das seis? Porque cantara um punhado de músicas pop-bregas traduzidas do inglês?

Não, eu não creio que foram aqueles os desmotivos.

Eu recebi foram críticas ancoradas a uma declaração de virgindade que significou, para aqueles canalhas conservadores, um veto a fantasias sexuais e taras de qualquer gênero. É a inversão da inversão da moral: não se pode sacanear as virgens porque sua opção as protege dos facínoras de boa índole, como eu. A breguice como salvo-conduto.

Desculpem, eu sou democrático e esse argumento não me atinge, ao contrário, me fortalece. Minha perversão se transformou em uma cruzada libertária, uma asserção de que todas as mulheres seriam iguais perante as minhas sobrancelhas cerradas. Da Sandy à Viviane Araújo, eu sou orgulhosamente imparcial. Todas merecem minha criteriosa avaliação, e os meus elogios, e as minhas detrações, e os meus fluidos.

Portanto, nas minhas imaginações livres e inspiradas em autores teatrais já falecidos, a Sandy é como uma filha casta de um amigo respeitável, o suburbano Doutor Chitão. Na verdade, Sandy foi adotada pelo tio depois que se abateu uma inominável catástrofe sobre seus pais biológicos. Criada com seu primo Durvalzinho, que nutre por ela uma paixão proibida. Não sabem os dois do grande segredo… Durvalzinho e Sandy são irmãos…

…mas voltando ao fio do raciocícinio: a gente conhece a criança desde quando ela era um espirro de pica e cantava Maria Chiquinha nos karaokês dos bailinhos, se vestia de bailarina e posava sorrindo sem dentes para as fotos amareladas do insuspeito álbum de família. E que, assim de repente, cresceu e ganhou peitinho (pequeno).

Ora, na vida real, quando essas meninas crescem, por algum inexplicável pudor, a gente até que respeita e tenta não cobiçar.

Todavia acontece que acompanho a vida da Sandy há muitos anos e, se por um lado a sociedade do espetáculo cria a ilusão da feliz intimidade das celebridades, por outro, eu racionalizo que não sou amigo porra nenhuma desses sertanejos, e conseqüentemente me sinto confortável para ser vil, sujo e malvado com a filha, sobrinha e irmã de outrem.

Em verdade vos digo, a Sandy me liberta, me permite viver a prazerosa experiência de ser um sórdido inculpado e, em seu nome, eu rendo homenagens.

O primeiro ano

Aniversário

É verdade, tudo começou aqui, há um ano mais um dia. Lembro-me como se fosse ontem, eu, Adamastor Goldman, embriagado pelas memórias, enternecido pelo uísque, embasbacado pelo ronronar dos dorsos nus das minhas amantes espalhadas pela cama.

E pensei: tanta poesia merece ser eternizada. Primeiro, em imagens - e, para isso, câmera digital. Depois, em palavras - uma efeméride virtual a que denominamos, por falta de imaginação para criar um termo na nossa língua pátria, “blog”.

Gostaria de agradecer a todos pela leitura atenta. Pelos elogios, insultos, cantadas, opiniões, tudo absolutamente perspicaz e coerente.

Às mulheres, pela inspiração constante! Vocês são mesmo o ar que eu inspiro. A água que eu bebo. E a comida que eu mais gosto de comer.

Aos camaradas sujos, por algum outro motivo menos nobre que o dedicado às mulheres. Certamente nenhum de cunho sexual. Vá lá, pelo companheirismo, e estamos conversados.

Por fim, um beijo especial para a Marilyn, na foto, querida, que saudades. Depois conto nossas histórias aqui, pra esses meninos e meninas que me acompanham, mal-acostumados que estão às coisinhas da Paris Hilton.

Abraços peludos e suados do Adamastor Goldman.

Eu acreditei

Choro tricolor  - foto: O Dia

Saudações,

deixem-me contar uma historinha, quase verídica.

O ano era 1981. Precisamente dezembro daquele ano. O pequeno A. (não vamos citar nomes), torcedor do Flamengo desde a mais tenra das infâncias imemoriais, preparava-se para a grande decisão do mundial interclubes, em Tóquio.

A campanha até ali tinha sido uma guerra. Batalhas épicas contra o timaço do Atlético. Acusações envolvendo o nome do juiz. O gramado do Serra Dourada, que beleza, todo cheio de desenhos, o Serra Dourada era o estádio mais bonito do mundo. As brigas no jogo do Cobreloa. O gol de falta do Zico. E então, um tal de Liverpool, que não deveria ser grandes coisas.

A última e decisiva partida, inexplicavelmente, ocorreria no fim do mundo, no Japão, e passaria na Globo tarde da noite. Ali depois do Super Cine. Ali depois da Sessão de Gala. Não era horário de criança ficar acordada, mas o pequeno A. aboletou-se no sofá da sala e aguardou pacientemente pelo jogo.

O Super Cine passou, e a família de A. foi se recolhendo ao quarto. O menino lutava para permanecer acordado. Mas não conseguiu por muito tempo. Sozinho, apagou, e só se deu conta disso na manhã do dia seguinte, pelo telecurso segundo grau.

Mas o pequeno A., mesmo sem ter visto o jogo, tinha a certeza infalível. O Flamengo havia sido campeão. Ele acreditava, No Flamengo e no Zico. Não havia como perder. Repito: era o Flamengo e era o Zico. O sol brilhava, o orvalho resplandecia, os pássaros cantavam. E então, seu pai contou-lhe o que ele já sabia, sempre soube: o Flamengo era o campeão do mundo! E a vida tornou-se diferente, mais fácil, melhor.

Bem, essa história toda foi só para tentar explicar o que o título do Fluminense poderia trazer para o menino chorão da foto. O título em que ele acreditou mas foi frustrado nos pênaltis. Ele vai carregar essa tristeza por décadas, pois sabe-se lá quando, já crescido, poderá levar seu filho a outra decisão igual. A vida é curta para um torcedor do Fluminense, é um fato. Talvez seja curta para todas as outras torcidas, mas pelo menos o pequeno A. teve seu momento crítico, sua epifania futebolística que formou seu caráter, e hoje ele é um bom homem, quase feliz.

Quanto ao menino chorão, que herdou o time do pai e que provavelmente não teve muita escolha clubística, só resta torcermos para que seja um rapaz honesto, um homem trabalhador, um pai dedicado. E que pense duas vezes antes de passar o seu time de coração para a próxima geração. Que lembre do Washington.

*  *  *

E P.S. aos meus amigos tricolores, alguns deles já com filhos infectados: torcer contra um time só engrandece o alvo da uruca. Vejam, só time pequeno consegue “unir” um país. Quem quer ser tratado como um América, um Madureira, um São Caetano? Quem quer ser o time simpático da segunda (ou terceira) divisão? Eu, se fosse vocês, teria implorado para que o país inteiro desse as mãos em uma corrente contrária e impiedosa! Assim, minha vitória teria o sabor das impossibilidades! O sabor de estar certo no meio da multidão errada!

Infelizmente pra vocês, não deu. O sabor foi o de cabo de guarda-chuva. Sinto muito, de verdade. Daqui a cinqüenta anos tem mais. Boa sorte para os filhos dos seus filhos!