Sacanagem é com Pedro Cardoso

Façamos uma pausa para homenagear o ilustríssimo ator Pedro Agostinho Cardoso que, num ataque de viadagem, desandou a levantar a bandeira da moralidade contra a nudez e a pornografia no audiovisual brasileiro. Fez um manifesto que foi lido no encerramento do Festival do Rio e publicado na íntegra num blog de divulgação de um filme protagonizado e produzido por ele, TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS. O discípulo anauê se adianta, “apesar do título, não tem sequer uma cena de nudez”.

A troco de quê? Qual é a do magrinho? Más línguas (no bom sentido não sexual) atribuem o ataque de fúria moralista ao elogiado longa de estréia de Selton Mello, FELIZ NATAL e uma suposta cena de nudez gratuita da Graziela Moretto, nova namorada do Cardoso. Outros especulam que tudo não passa de auto-promoção descarada para vender ingressos de TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS. Já o nosso guru maior Carlo Mossy tem outra teoria: “Isso deve ser frustração por ele não ser nem um Gianecchini ou um Mossy dos anos 70″. É, pode ser!

Citou até Truffaut entre seus garranchos e acabou incitando mais alguns pontos negativos para o cinema nacional, tão desprestigiado como sempre e rechaçado pela tradicional família brasileira ainda traumatizada pelos áureos tempos da pornochanchada. Pornochanchada essa que era capaz de arrastar multidões ao cinema sedentas por peitinhos não siliconados e belas ancas celulíticas com marquinhas avantajadas de biquínis pré-fio dental.

Pra piorar, Pedro Cardoso ainda renegou seu passado mostrando-se pra lá de arrependido por sua participação no deliciosamente ruim OS BONS TEMPOS VOLTARAM, VAMOS GOZAR OUTRA VEZ, filme em dois episódios dirigido por Ivan Cardoso e John Herbert. No capítulo de Ivan Cardoso, Pedro (que apesar do sobrenome não tem nenhuma relação com o grande realizador de O SEGREDO DA MÚMIA e AS SETE VAMPIRAS) termina comendo uma jovem e linda Carla Camuratti. O videozinho aí de cima é um compacto, mas o filme passa semanalmente no Canal Brasil. O moralista da hora assumiu que usou dublê na cena!!! E ainda fez pouco caso do veteraníssimo e respeitado produtor Aníbal Massaini, segundo ele “um tal que agora parece que também é cineasta”. Pode?

Diante da idiotice proferida, resolvi relacionar alguns nomes que por si só seriam capazes de calar a boca de manifestações semelhantes. Senão vejamos: Pasolini, Ferreri, Antonioni, Bertolucci, Oshima, Von Trier, Cronenberg, Jabor, Khouri, Neville, Reichembach, Mojica… Gênios nacionais e internacionais que têm em comum alguma sacanagem pesada nos seus currículos e nem por isso deixam de freqüentar listas de favoritos.

Enfim, se você, o Pedro Cardoso ou o raio que o parta são defensores da moral e dos bons costumes, corram ao cinema pra ver HIGH SCHOOL MUSICAL. Mas respeitem os punheteiros solitários ou grupais que precisam de sacanagem no cinema tanto quanto bife com batata frita. Além do mais, o que seria de filmes como O HOMEM QUE DESAFIOU O DIABO sem os peitinhos da Fernanda Paes Leme e o fio-dental da Flavia Alessandra? Viu como sacanagem é necessária!

CRASH, David Cronenberg

Me deu vontade de mostrar uns rabiscos antigos que andei revisando. Divagações sobre um dos mais assustadores e bizarros filmes de todos os tempos. Pouca coisa no cinema me causou tanto espanto e fascínio quanto CRASH, do Cronenberg. Tão repulsivo e tão genial que me remete a outros 3 filmes: LUA DE FEL (Polanski), O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (Bertolucci) e IMPÉRIO DOS SENTIDOS (Nagisa Oshima). Todos profundos estudos da sexualidade humana. Mas também filmes políticos. Tenho interpretações extravagantes. Acho que parecem ter sido feitos para completarem-se entre si. O que um filme não diz, está no outro. Uma saga em 4 episódios dirigidos por cineastas diferentes e em momentos diferentes. Voluntário ou involuntário?

Quatro filmes que, na essência, buscam a caracterização sexual da alienação, no mais acadêmico conceito marxista. Os personagens desses filmes entram em processos de ausência total da realidade em prol de algo que lhes dê liberdade. Momentos fugazes de paz e felicidade que invariavelmente entrarão em colapso pela exaustão. A tal alienação, assim como Marx pregava falando das relações de trabalho.

A presença da morte e do flagelo nestes filmes (cena da manteiga de TANGO, castração de IMPÉRIO, atropelamento em LUA, ou nas porradas mortais de carro em CRASH) se faz necessária, como referência aos limites absolutos do prazer humano. É exatamente esse extremo psicológico e carnal que define o caráter político das obras. O distanciamento da realidade, a busca do inteligível e do inimaginável, as relações opressoras e violentas como metáfora às opressões de um sistema “invisível”, onde nunca conseguimos identificar ao certo quem nos oprime.

Quatro filmes ousadíssimos, mas acho que Cronenberg foi quem conseguiu atingir melhor os objetivos. Nos outros 3 filmes, a questão do extremo é abordada como que num ápice sexual, como numa trepada e, de repente, o gozo, a explosão do prazer absoluto, a ignorância máxima pela morte e pelo medo. Apenas prazer. Isso não acontece em Crash, onde o gozo está além do prazer sexual. O ápice sexual é o encontro com a própria morte. Se nos outros filmes, a alienação é um estagio máximo de degradação, em Crash, a alienação é a arma para atingir o fim. O homem social é naturalmente degradado e sabe que nada lhe resta além da morte.

CRASH é ainda o mais marxista de todos. Senão vejamos. A tara sexual dos personagens por carros nos remete diretamente a questão do consumo de massa e seu símbolo maior de status. A tecnologia da velocidade cegando o cidadão que passa a transferir as suas neuras e fantasias para objetos de consumo imediato. Pessoas viram detalhe. Consumismo e materialismo, pra ser mais exato. Fetiche, como o p´roprio Marx bem definiu inserindo-a no contexto sócio-político da sociedade. Em CRASH, o prazer carnal, os corpos, o biológico, os próprios homens… Todos são nada. Apenas carne. O mais importante para aquele grupo de tarados alienados é o objeto. A máquina, o bem material que tem real valor de mercado. Degradaçãoes físicas e materiais como forma de sacrifício pelo capital. O prazer de sentir a perda fetichista dos valores que nos classificam como seres capitalistas racionais. A morte definitiva da moral.

Almanaque Zé do Caixão

Pessoal,
Uma breve intervenção que deverá ser útil para os meus 5 leitores. O Almanaque Virtual da UOL colocou no ar uma edição especial do José Mojica, por conta do lançamento de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Colaborei na edição com uma suada e peluda crítica do clássico À MEIA-NOITE LEVAREI TUA ALMA.

Divirtam-se! E que suas entranhas se transformem em serpentes e devorem seus intestinos se vocês não forem ao cinema assistir a volta de Coffin Joe!!!

http://almanaquevirtual.uol.com.br/almanaque.php?id=15034

Melô do Strip-Tease

Alguns poucos aspectos antropológicos me levaram a postar o belíssimo número musical pescado de um programa de auditório da TV nos idos 1996. O gosto musical duvidoso não está em questão quando abro espaço para a finada (ou existe ainda?) Cia do Pagode e sua pérola MELO DO STRIP-TEASE. Pra quem não lembra, eles fizeram também a famosa NA BOQUINHA DA GARRAFA.

Eram anos de faculdade, Debord, Escola de Frankfurt e Nietszche. Mas os hormônios estavam na flor da idade. Foi numa tediosa tarde de domingo zapeando TV afora que me deparei com aquela imagem. O instinto macho sempre me obrigou a parar nos canais que mostrassem música baiana com dançarina gostosa. Aprendi a desligar o ouvido. É fácil, nem precisava abaixar o volume da TV. Era só acompanhar as bundas. É antropologicamente curioso ver a admiração que aquelas bundas hipnotizantes causam em macacas de auditório e crianças que vêem essses programas em casa, incluindo eu.

Mas foi naquele dia de domingo que vi a Sara dançando o MELO DO STRIP-TEASE. E todo o meu conceito de dançarina baiana ficou velho. Uma mulatíssima da cor do Brasil despudoradamente safada. Tirando tudo! Num programa de auditório. Para as macacas, populares e crianças. Imaginei menininhas tirando tudo como se contorcem hoje com o CRÉU! Naquele momento eu vi a ruptura entre o pueril e o grotesco. A sugestão maliciosa ficou explícita e caiu no gosto popular. Notem bem a cara das jovens senhoras no auditório. É um caso hilário para se analisar à parte. A putaria como pão para o povo. Que delícia!

Alguns dias depois tive o prazer de ver o videoclipe da música. Era ainda mais tesudo e sexual. E nunca mais revi. Foram apenas 2 únicas oportunidades que tive de ver essa pérola. Aliás, porque será que ninguém ainda colocou o clipe no Youtube? Seria um prazer rever a Sara dançando no meu computador uma silenciosa música no volume mínimo.

1 minuto de Ody Fraga

Não me julgo gabaritado para desenvolver um longo ensaio sobre Ody Fraga. Vi uma meia dúzia dos seus 25 filmes totais. Mas o vídeo acima merece atenção. 1 único minuto pra se entender a graça do seu cinema. SENTA NO MEU, QUE EU ENTRO NA SUA foi seu penúltimo filme, realizado 2 anos antes de falecer aos 60 anos em 1987. São duas histórias. A primeira dá pra saber pelo diálogo do vídeo. Já na segunda, conta a história de um cara que aumenta sua potência sexual depois que um cacete nasce na sua cabeça.

Ody Fraga foi um dos grandes da Boca do Lixo. Ele era mais velho do que a geração intelectual e gostava de explorar o máximo possível da sacanagem. Tanto que foi um dos primeiros que começou a fazer sexo explícito, no início dos anos 80. Acontece que os filmes de sacanagem da Boca eram, antes de tudo, feitos por gente que sabia das coisas. Os filmes eram entupidos de referências clássicas e engraçadíssimos. Faziam piada com política, religião e putaria. Imaginem filmes do TELA CLASS do Hermes & Renato, só que sem dublagem. Diálogos absurdos, só que não eram fake. Coisa pra se mijar de rir. Alguns clássicos já até andei comentando com vocês. OH REBUCETEIO (Claudio Cunha), FUK FUK A BRASILEIRA (Jean Garrett), PALÁCIO DE VÊNUS (também do Ody Fraga, mas que não chega a ser pornográfico), UM PISTOLEIRO CHAMADO PAPACO (Mario Vaz Filho)…

Um oásis chamado CANAL BRASIL

Passei uns 10 anos da minha vida pagando tv por assinatura sem o Canal Brasil. Não que eu não quisesse. Minha operadora não tinha o sinal. O tempo passou e há 2 meses minha sorte mudou. Canal Brasil à disposição. Começo a acreditar que televisão vale a pena. Existe um oásis no Saara natimorto e superficial da falsa dramaturgia jornalística.

Isso não é um merchandising. É desabafo de um aliviado. Alguém que encontrou num canal a possibilidade de sempre ter prazer em ver TV. Na rede aberta, pra se ter uma idéia, acho que só o CQC da Band tem me prendido a atenção. Mas no Canal Brasil têm programas como RETALHÃO (Zéu Britto) e O SOM DO VINIL (Charles Gavin), além dos recentes SEM FRESCURA (com o mestre Peréio) e…

O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO, onde o papa Mojica encarna seu demo em quadros e entrevistas. Uma conversa mais hilária do que a outra. Vi com Lobão, Peréio e Bruna Surfistinha. Brilhante! Insere uns quadros freakazóides no meio. Sempre causa estranheza. Filmou a própria operação de glaucoma. Genial! Termina o programa rogando uma praga! Tenho pesadelos com a primeira que ouvi: “Que seus intestinos virem serpentes e lhe devorem as entranhas se você não assistir ao próximo capítulo”. Eu é que não sou louco de perder! O vídeo lá de cima mostra a entrevista com Lobão e essa tal praga que me deu arrepios.

Assisto muito pouco a TV. 1 ou 2 horas deitado na cama pra dormir. Mas os filmes do Canal Brasil estão me provocando insônia. Não há distinção de critérios estéticos e conceituais. Passam absolutamente qualquer tipo de gênero, desde que brasileiro. Aliás, tem aumentado gradativamente a exibição de filmes independentes latinos. Mas o forte mesmo é o cinema Brasil. Passam dos blockbusters aos clássicos, documentários e independentes, curtas e médias, políticos ou alienados, marginais e mainstream. Tudo. Nas duas últimas semanas assisti o horroroso Ó PAÍ Ó (Monique Gardenberg), o nostalgicamente ruim BETE BALANÇO (Lael Rodrigues) e o último injusto fracasso de bilheteria do Ruy Guerra VENENO DA MADRUGADA.

Por outro lado, vi também nesse período alguns perdidos na madrugada. Nada menos do que O PORNÓGRAFO, genial obra de 1970, dirigida por João Callegaro. Stênio Garcia interpreta um CIDADÃO KANE da pornografia. É o canto dos cisnes da Boca do lixo. A intelectualidade e a paixão pela arte a serviço da indústria capital. Se corromper ou ser corrompido pela arte. Eis a questão. Tudo num clima neo noir. Fantástico. Uma obra-prima do cinema de invenção.

Vi também o chato e tesudo A ILHA DOS PRAZERES PROIBIDOS. Numa alusão direta ao filme de Callegaro, Carlos Reichenbach dirige um filme que se presta apenas a mostrar peitos e bundas gratuitamente. Mas Carlão é Carlão. O responsável por AS LIBERTINAS, AUDÁCIA e FILME DEMÊNCIA é sempre uma obrigação moral e cívica do bom cinéfilo. Curiosamente, outro filme que me chamou atenção foi justamente um do qual eu nunca ouvira falar. Como na grade de programação dizia que era do Reichenbach resolvi conferir.

ESCOLA PENAL DE MENINAS VIOLENTADAS era o sugestivo título. Uma sucessão de atuações bisonhas de meninas deliciosas, todas entranhadas em minúsculos shortinhos e micro saias. As pobres vivem num regime de terror imposto por uma freira tarada que as tortura com ajuda de um gorila que parece o Shrek. Têm cenas de tortura assustadoras. E muita nudez gratuita. Me lembrou muito SALÓ do Pasolini, medidas as pretensões. Filme de punheteiro violento. Isso em 1977! Depois descobri que o filme era na verdade do Antonio Meliande, um dos pioneiros da geração sexo explícito na Boca do Lixo, diretor de clássicos como QUANDO A B… NÃO FALTA, CURRAS ALUCINANTES e BOBEOU… ENTROU.

Falou Boca, falou Ody Fraga, diretor do genial e também conferido PALÁCIO DE VÊNUS, ironia porno-política na medida certa. A guerra de poderes num bordel de luxo apresenta uma sucessão de deboches as convenções morais e religiosas da burguesia. Mãe, filho e filha entram numa orgia com 2 putas liderados pelo marido industrial que vocifera: “Produção!”. Helena Ramos é uma freira que vende o corpo para se purificar, tendo como cliente favorito um coroinha que carrega um estandarte da TFP. Hilário. Vi também um filme escrito pelo Ody Fraga e dirigido pelo David Cardoso, Luiz Castellini e John Doo. PORNÔ! é a típica pornochanchada com 3 historinhas constrangedoras e tesudas. Na primeira, tem La Mastrangi de freira mandando ver. Um primor.

Enfim, poderia ficar aqui falando até amanhã do que o Canal Brasil tem feito por mim. Agradeço solenemente a toda a equipe e idealizadores. Continuem assim e, daqui a pouco, estarei até achando que TV faz bem a saúde.

OZUALDO R. CANDEIAS

Cinema brasileiro clássico é coisa rara e de museu. No Brasil, pouca coisa além do cinema novo conseguiu permanecer para os arquivos históricos oficiais. Mesmo com a atuação de universidades, faculdades de cinema, cinematecas e instituições românticas que ainda acreditam na alma cineclubista, sabemos que muitas filmografias e obras particularmente importantes são bichos em extinção. Herança de um país imbecil que trata cultura como pasto e de uma ditadura implacável que nunca poupou esforços pra queimar centenas de milhares de negativos. Cortes, seqüências e filmes inteiros. Todos no forno, no mar, no lixão.

Mas o foco da conversa aqui é outro. É falar de um desses perseguidos e ignorados. Desses marginais udigrudis malditos de invenção, sei lá! Alguns o chamam de pai de todos, já que realizou o primeiro filme da geração, A MARGEM. Estou falando de Ozualdo Candeias. O cineasta mais conhecido pelo que se escreve dele do que por seus filmes propriamente ditos. Um independente puro sangue que nunca precisou de dinheiro para realizar obras controversas e geniais. Um dos precursores da Boca do Lixo.

Poucos dos seus filmes foram distribuídos em circuito comercial ou tiveram apoios do governo. Foi inspiração de toda uma linha de cineastas autorais fora do comum. Realizou filmes que com o tempo desapareceram do mapa. Filmes tão raros que nem Internet é capaz de ajudar ao cinéfilo mais atento. Youtube então, nem pensar. Tanto que o filme acima foi único que achei com Ozualdo. Por sinal, maravilhoso depoimento do mestre.

Eu conheci através dos livros. E levei alguns anos para ver seu primeiro filme, UMA RUA CHAMADA TRIUMPHO. Um registro documental do dia-a-dia da Boca do Lixo e seus personagens mais freqüentes: os cineastas, as prostitutas e os bêbados. Bacana. Depois vi A MARGEM, seu longa de estréia, e tudo virou de cabeça pra baixo. Vi LIMITE, Buñuel e Jodorowsky. Imagens variando entre rostos decadentes e paisagens de rara beleza desoladora. O lixo, a imundície e a escória de marginais errantes à beira de um Tietê profético. Surrealismo e documental misturam-se num mesmo filme. Uma catarse.

Só que é preciso alertar. Ozualdo foi uma espécie de Ed Wood intelectual. Fazia filmes geniais, mas toscos até a última raiz do cabelo. Realizava produções independentes com parcos incentivos regionais e mais uns trocados do bolso. Seus filmes apresentavam montagens inovadoras e criativas, assim como fotografias impressionantes. As atuações amadoras e muitas vezes risíveis, por vezes surpreendem. Mas não estranhe ver o lençol que camufla a barriga de uma grávida cair em cena. Os defeitos de som também chamam atenção, mas vale lembrar que boa parte dos filmes “marginais” faziam isso propositalmente. Que o diga Deus Sganzerla.

A MARGEM é um legítimo filme de arte difícil e surreal. Não é o caso de MEU NOME É TONHO, longa seguinte de Ozualdo com um roteiro redondo e linear. Conta a saga de um pistoleiro cigano que enfrenta a sanguinária gangue de um latifundiário. Um faroeste nos pampas gaúchos. Acha engraçado? Então se prepare para ver a versão brasileira de Sam Peckinpah e Sergio Leone. Os mesmo princípios, morais e costumes. Os mesmo códigos de sobrevivência. A mesma decadência e selvageria. Violento, sangrento, mal, apelativo. Tem até tiros com sangue como em Peckinpah. Mas falta dinheiro, como sempre em Ozualdo. Parece tosco e é. Mas é magnífico. Vi também outro faroeste tupiniquim dele: MANELÃO, O CAÇADOR DE ORELHAS. Dei umas risadas. Mas é muito fraco. E tosco, claro.

Morreu no ano passado no mesmo ostracismo que acompanhou toda a sua carreira. Com exceção do mundo acadêmico e crítico, poucos brasileiros se deram a trabalho de saber quem foi Candeias. Uma boa oportunidade é a mostra na Caixa Cultural do Rio que continua até o dia 20. Ainda verei outros. Termino aqui falando do melhor. Que A MARGEM que nada! O melhor do Ozualdo até agora é ZÉZERO. Um média-metragem de 31 minutos feito em 1974 e inacreditavelmente genial. Vou contar a história toda aqui porque a chance de você ver esse filme é muito próxima do zero já que se trata de exemplar de museu. Portanto, divirta-se. Mas se você acredita que ainda verá o filme, então pare por aqui e até a próxima.

O camponês vê uma fada bizarra envolta em parangolés, panos rasgados e uma coroa de rolos de negativos de filmes. Ela apresenta manchetes de jornais para ele mostrando celebridades, vida na cidade grande e dinheiro. Só efeitos sonoros. Não há diálogos.

Corta a cena e ele se despede da família, largando mãe, mulher e filhos. Vai pra cidade. Montagem quase videoclíptica mostrando agitação da cidade e sua vida miserável. Arranja emprego de pedreiro e começa ganhando 200,00 líquido (vemos no seu contra-cheque onde pecebemos que seu nome é José Piccas). Gasta o dinheiro com carnê do Baú da Felicidade, loterias, jogos e putas. O que sobra manda pra família.

O tempo passa e o salário dele vai diminuindo. Pagamento de carnês, dívidas de jogo, obrigações. Até receber 20,00 no contra-cheque. Detona nas prestações do baú e tenta comer uma puta sem pagar. Tenta estuprá-la. Ela foge e deixa ele com o pau na mão. Ele corre pro canto do mato e termina a bronha. Quando goza ouve-se pela primeira vez a sua voz em alto e bom som: PUTAQUEPARIU, GANHEI! Montagem repete 5 vezes o grito e mostra manchetes de jornais anunciando ele como novo milionário.

Corta pra casinha no interior. Ele chega de motorista e terno. Procura pela família e vê que tudo está abandonado. Um narrador diz que sua família foi dessa para uma melhor. De repente aparece a fada do início do filme na frente da casa. Ele reclama que foi a cidade enriquecer pra ajudar a família e que agora não tinha mais família. Ele pergunta: O QUE FAÇO COM TODO ESSE DINHEIRO? Ela responde: ENFIA NO CU! Montagem repete a frase 5 vezes. Tela preta, fim.

É ou não é genial?

O CORPO DE SKANDAR

 

Hemofagoide (papietagem, 2007)Perambulando pelos ares blogueiros, me deparei com um jovem artista chamando atenção para um link. Fez um curta para divulgar seu trabalho em papel machê. Não dei muita atenção, principalmente porque não sou muito chegado a links desconhecidos, temendo sempre pelo risco da imprevisibilidade internética. Seguido ao post, meia dúzia de comentários de terceiros, entusiasmados com o trabalho. Não resisti à curiosidade.

Foi assim que conheci O CORPO DE SKANDAR. Um filminho simples que revela a perfeição dos traços de um artista plástico a ser descoberto. Impressionado, descobri no orkut que o artista AlexandreCanson A4 (óleo sobre papel, 1996) Jorge tem talentos também para gravuras, pinturas e epóxi. Achei que, pela primeira vez, a coluna OUTROS FILMES deveria abrir espaço para o não cinema, ainda que a arte de Alexandre tenha altíssimo caráter cinematográfico.

Alexandre Jorge é um paulista de 29 anos que divide seu tempo entre o trabalho como diretor de arte numa gráfica e as artes plásticas. Levou dois meses para dar “vida” a Skandar. Sim, dar vida, porque a inspiração para essa criação é curiosa. Imagine uma roda de amigos contando histórias macabras durante um final de semana num sítio afastado da civilização. Após a sessão “terror”, todos juntos vão Gestação (acrílica sobre tela/carvão, 1994)caminhar na estrada deserta e escura. No meio do nada, um cadáver aparece no caminho. A brincadeirinha macabra rendeu pânico e o filme acima. Um trabalho que nasceu da vontade de gozar com os amigos.

A transformação do mistério em arte é o tema constante de sua obra, fortemente influenciada por Topor, Kimt, Bosch e tudo que já viu no cinema, como define. Questionado sobre a morbidez do seu trabalho, Alexandre Jorge encerra: “Não é a morbidez que me seduz e sim os mistérios, tanto da morte quanto do universo”

METEORANGO KID, o herói intergalático

“10 anos sem estudar, 10 anos vagabundando por aí,
10 anos de maconha, 10 anos marginal.
Cagar é só o que dá vontade de fazer.
Cagar, porra! Mas é duro.
Só eu pra dizer o trabalho que me deu pra chegar até aqui.”

 

O título de METEORANGO KID (1970) sugere um trash tupiniquim de heróis. Não é, mas pode causar espanto, risos e repulsa falando de coisas um pouco mais sérias. O movimento underground baiano no final dos anos 60 revelou muita gente interessante. André Luiz Oliveira foi um deles. Formado pela faculdade de cinema da UFBA, André juntou atores do teatro marginal, cinema de vanguarda e Novos Baianos para filmar um texto de sua autoria sobre a revolta da juventude classe média.

No centro de tudo, Lula, um jovem crucificado entre o dever da inconformidade política e a moral da família burguesa. Perdido, opta pela alienação como viés mais simples para levar a vida. Seu poder de ser esculhambado e esculhambar é proporcional. O jovem como interseção dos acontecimentos. Como no clássico de Andréa Tonacci, BLABLABLÁ (1968) todos têm e não têm razão. Os discursos políticos são ora inócuos, ora substanciais. E a idéia é mostrar o que a dúvida pode causar na cabeça daquele jovem, cada vez mais sedento pela repulsa alheia.

Passeia entre as melecas que tira enquanto azara meninas, a indiferença pelos protestos políticos dos amigos e os baseados que queima. Lula delira como se fosse um astro do cinema na pele de heróis como Tarzan e Batman. Ao longo do filme, cruza ainda com outras figuras como o amigo que profere as sábias palavras que abrem esse texto. O filme também nos apresenta um personagem isolado, um inacreditável homem vampiro que tenta, em vão, atacar pescoços de mocinhas indefesas.

Lula, assim como André Luiz Oliveira, observa o mundo com um riso irônico, sede de rebeldia e vontade de mandar todos tomarem… Rebeldes com causa e sem porquês. Isso fica claro na seqüência chave onde Lula e dois amigos enrolam e queimam um baseado. O desfecho é a tradução da ideologia humana. A lei do mais forte. Aliás, depois de METEORANGO, fica fácil saber onde Lírio Ferreira e Selton Mello se inspiraram para a “aula de enrolar baseado” no excelente ARIDO MOVIE (2006).

Esteticamente, METEORANGO KID bebe na fonte de Glauber (principalmente CANCER) e Sganzerla (BANDIDO DA LUZ VERMELHA e HQ), flertando também com o neo-realismo italiano e nouvelle vague. A origem Tropicália e a arte de Helio Oiticica também são facilmente identificadas. No entanto, a ousadia faz o filme parecer muito com os primeiros trabalhos de John Waters, onde a prioridade é apresentar um freak show de figuras repulsivas, aterradoras e surrealistas.

METEORANGO KID entrou para a história como um dos principais filmes marginais do cinema brasileiro e ganhou o prêmio do público no Festival de Brasília. André Luiz Oliveira ainda fez alguns poucos trabalhos, entre eles o genial e premiado LOUCO POR CINEMA (1994) que parece um CECIL B. DEMENTED (John Waters) tupiniquim. O cineasta também realizou recentemente dois filmes que não foram para circuito, são eles EM VERDADE VOS DIGO e SAGRADO SEGREDO, ambos de 2005.

ROGÉRIO SGANZERLA

Anos de cinefilia e alguns mais como crítico de cinema fizeram Rogério Sganzerla pegar numa câmera com uma certeza: o cinema precisava de transgressão. Ele foi além, tentando ao longo dos seus quase 30 anos de carreira aproximar essa transgressão do público. Ao contrário dos militantes do cinema novo que criavam seus filmes para uma seleta minoria intelectual, Sganzerla (e seus colegas do chamado cinema marginal paulista) acreditavam que filmes deveriam ser feitos para a população comum, sem nunca perder o fio transgressor.

No seu filme de estréia, o curta DOCUMENTÁRIO (1966) acima pinçado do youtube, é possível identificarmos essa aproximação. Aliás, é possível constatarmos em apenas 10 minutos tudo o que Sganzerla tomaria como norma de produção em toda a sua carreira. Da linguagem coloquial popular e repleta de gírias a questão primordial do que realmente o brasileiro comum desejava ver no cinema. Inserido neste contexto, uma explosão de idéias e referências que falavam da paixão pelo cinema e pelas histórias em quadrinhos, dos anos de chumbo militar, da crítica social urbana e das dificuldades de se fazer arte num país como o Brasil. Tudo filmado com simplicidade, originalidade e edição até então inovadora. Fórmula que repetiu no seu aparentemente inocente e ferozmente crítico curta seguinte, HQ (1968). Um documentário contando a história dos quadrinhos sob um enfoque crítico inimaginável.

Os ensaios em curta-metragem credenciaram Sganzerla a lançar seu primeiro longa. Nada menos do que O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (1968), um dos maiores e mais geniais filmes da história do Brasil e do mundo. Uma saga marginal alegórica que, além das bandeiras de DOCUMENTÁRIO e HQ, unia elementos da cultura “povão” como notícias radiofônicas policiais e jornais da imprensa marrom com Samuel Fuller, Godard e Cassavetes. Enfim, o canto dos cisnes da transgressão popular. Cinema culto para as massas. O resultado disso foi a bilheteria hoje estimada em cerca de 8 milhões de espectadores. Sagazerla estava certo.

No filme seguinte, elevou a ousadia a um patamar poucas vezes visto no cinema brasileiro anteriormente. Alguns arriscam até a dizer que A MULHER DE TODOS (1969) tem tudo para ser considerado a primeiro filme da pornochanchada brasileira. Isso até poderia ser relevante, se esse filme não levasse as idéias transgressoras ainda mais longe do que BANDIDO pretendeu. Não chega a superar o grande clássico de Sganzerla, mas é certamente o seu segundo melhor trabalho. Num explícito endeusamento de Helena Ignez como musa maior do cinema de vanguarda, Sganzerla destrinchou a cartilha literal do sexo, drogas e rock´n roll pra contar a história de Ângela Carne e Osso, a mulher infiel de um milionário, ora industrial, ora general, ora ignorante, ora carniceiro (interpretado por Jô Soares!). Tudo ambientado numa fictícia república de bananas.

Já oficialmente companheiro de Helena Ignez (eles nunca foram casados de fato), ambos se uniram ao amigo de ideais cinematográficos pouco ortodoxos, Julio Bressane, e juntos fundaram a BELAIR. Uma companhia de cinema independente com idéias pra lá de libertárias. O resultado disso na filmografia de Sganzerla foi o experimental ao extremo SEM ESSA, ARANHA (1970), o genial COPACABANA MON AMOUR (1970) e o raro BETTY BOMBA, A EXIBICIONISTA (1975). Assim como em A MULHER DE TODOS, esses filmes também traziam a marca do amoralismo e da mulher como centro do universo. Personagens essencialmente sacanas e andróginos às voltas com o dia-a-dia do verdadeiro povão.

Após o fim da BELAIR, Sganzerla ainda realizou o inacreditável O ABISMO (1977), filme do qual a seqüência abaixo deixa claro o conceito de sua existência, com Zé Bonitinho filosofando sobre o universo. Permaneceu filmando documentários até lançar em 2003 seu último filme O SIGNO DO CAOS, voltando aos seus temas originais como liberdade de expressão, criatividade artística e repressão da censura. Foi premiado em Brasília e faleceu logo depois, em janeiro de 2004.

A quem interessar, a mostra HELENA IGNEZ, A MULHER DO BANDIDO está em cartaz até o dia 20/janeiro na Caixa Cultural RJ. É possível assistir lá alguns dos filmes aqui citados, além de outros protagonizados pela eterna musa do deus Sganzerla. Amén!